Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005
Participação, Revolução e Cidadania (PREC?!)
Quando passam trinta anos dos tempos de brasa do pós-25 de Abril, a RTP brinda-nos com uma pequena rubrica diária, depois do telejornal, em que se recordam alguns episódios marcantes desse período.
Há dias revimos o caso do julgamento popular de José Diogo, verdadeiramente inquietante para um incauto cidadão de um democracia moderna como a nossa pretende ser. Pudemos ver um velho frágil que nunca se quis herói dizer não se orgulhar de ter morto um homem, mas a história tem destas coisas e por aqueles dias havia de querer inscrevê-lo para a posterioridade como o camponês oprimido que matou heroicamente um patrão fascista e capitalista.
No programa de ontem lembrámos episódios tão significativos ou tão insignificantes como o da herdade da Torre Bela, a destituição da comissão dirigente de uma columbófila (?!), ou a visita de um ministro a umas minas. À distância de trinta anos e a um olhar que se queira disponível, é com algum encanto que se vê dois camponeses numa intensa discussão ideológica sobre a propriedade, em torno de uma enxada, que se percebe o quanto era importante a participação na altura, até numa simples columbófila, ou que se recorda na voz de um mineiro uma evidência tão facilmente esquecida, que o estômago de dois homens é igual, ainda que seja diferente o salário que auferem.
Muitos dirão destas histórias que ilustram bem os excessos da revolução. Outros lembrarão, desiludidos e com saudade, que essa foi a altura em que o povo mais perto esteve do poder, em que as utopias sonharam realizar-se. É uma história muito próxima ainda, um período ainda não “arrefecido” de todo na nossa memória, para que as perspectivas possam ser mais lúcidas. E isso não é mau, até. É apenas a evidência da sua importância.
Mas quantos reconhecerão nesses dias, para lá dos excessos e da ideologia “pronta a servir”, o momento talvez único da nossa história em que o povo realmente participou, tomou parte em todas as discussões e acções, acreditou, num impulso de genuíno civismo, que tão desejável seria em qualquer democracia moderna, mas que infelizmente a nossa não pôde ou não quis preservar? (Zé Paulo)


publicado por antmarte às 15:18
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De Anónimo a 18 de Novembro de 2005 às 16:17
Muito aprecio a dialéctica (aí, onde eu me estou a meter) campesina desses tempos e tenho alguma dificuldade em perceber as empertigadas opiniões que alguns sectores deste país manifestam sobre esses tempos. Compreendo que os intervenientes neste periodos de todos os quadrantes possam ter as suas razões, mas não aceito que quem não tenha participado (ou porque eram muito novos ou porque estavam no Brasil) não consigam ver estes acontecimento com a distância historica que permite discutir alguns assuntos de forma bem mais calma. Eu proprio já tinha pensado num post sobre este programa, mas infelizmente não tenho conseguido ver o programa e até desconfio que era capaz de ser melhor um outro horário ou enquandramento.jose raposo
(http://joseraposo.blogspot.com)
(mailto:jose_raposo@netcabo.pt)


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