Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2006
Lilith (de vermelho) ou Eva (de branco)


Lilith versus Eva;


Sempre me atraíram as personagens mais diabólicas da mitologia... mas a que mais me intriga e fascina é Lilth, pela sua independência, coragem, perversidade e intensidade.

Lilith foi a primeira mulher de Adão, depois sim veio a Eva, submissa e obediente... tirada de uma costela do companheiro.

Hoje apetece-me tornar a Lilith mais real, e menos lenda!

“It doesn't hurt me
Do you wanna feel how it feels?
Do you wanna know that it doesn't hurt me?
Do you wanna hear about the deal that I'm making?
It's you and me, yeah…”

Lilith, cheia de sangue e saliva, foi criada do mesmo pó que Adão, por isso exige ser considerada sua igual, desobedecendo a sua supremacia, à sua dominação à sua maneira de se impôr e demonstrar poder.
Desta forma, renega também uma ordem do pai - Deus.

Lilith revolta-se com sua condição de submissão.
Tal atitude traz-lhe consequências trágicas, acabando por se tornar a Rainha do Palácio do Demónio. Declarando guerra ao pai passando a atemorizar os homens.

A natureza de Lilith é astuta como a serpente. A sua sabedoria de demónio é grande, mas por isso grande também é o seu sofrimento.

Lilith é a prostituta, é a sedutora, é a Bruxa, a mulher devoradora, a mulher fatal, a feminista,.... Opondo-se à virgem, à boa mãe, à deusa... quem sabe, a Eva.


Estamos diante do eterno problema????/ tema do FEMININO-DIABÓLICO

Mas começando do como, Tudo começou assim:

Deus criou Lilith e Adão ao mesmo tempo e do mesmo pó.
O amor de ambos começa a ser perturbado quase imediatamente. Não havia paz entre eles porque quando se uniam na carne, evidentemente na posição mais natural - missionário - Lilith ficava impaciente, perguntava ao companheiro: “Porque devo deitar-me debaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Porque razão devo ser dominada por ti? Também eu fui feita do mesmo pó que tu, e por isso sou tua igual.”

Ela pede para inverter as posições sexuais para estabelecer a harmonia... uma harmonia que deve significar a igualdade entre os dois corpos e as duas almas. Assim que Lilith faz este pedido, ainda húmido de calor, Adão responde secamente não.

Lilith dece ser submetida a ele, ela deve estar simbolicamente sob ele, suportar o seu corpo e o seu peso.
Portanto: existe uma ordem que não pode ser alterada.

Ela como não aceita esta imposição e revolta-se contra Adão. Aqui dá-se a ruptura do equilíbrio.
Qual é a regra do equilíbrio? Está escrito, que o homem é obrigado à reprodução, a mulher não. Diante da recusa de Adão, Lilith pronuncia, irritada, o nome de Deus e ao acusar Adão afasta-se.

Enquanto isto sucede, Adão sente de imediato uma dor crua, uma angústia de abandono. O homem havia obrigado uma não à sua mulher. E assim surgem as trevas.
Adão tem medo, sente que a escuridão o oprime. Sente que as coisas boas terminaram com o desaparecimento de Lilith.

Dirige-se a Deus:

"Procurei no meu leito aquela que é o amor da minha alma; procurei e não encontrei. Agora só tenho o desespero, a dor por ter perdido Lilith."

Deus quer saber de imediato a causa do litígio e compreende que a mulher desafiou o homem e, portanto o divino.

Lilith voou para longe, em direção às margens do Mar Vermelho, depois de terprofanado o nome de Deus Pai....

Assim é apresentada na tradição hebraica a história de Lilith.

Não há conclusão: de resto, a conclusão pode ser tirada por nós.
Lilith permanece na própria liberdade, demoníaca... desencadeando a sua força destrutiva e desde aquele dia nunca mais ficará com o homem.
Lilith torna-se numa mulher feita de fogo, instintiva, carnal, vingativa e devoradora de paixões até á ultima gota. Os homens são seu objecto de paixão e vingança... sem remorsos.

Lilith:

"Nas noites escuras e frias,
quando tudo são trevas puras,
em tua casa penetrarei,
atravessando as grades da janela tua
sob a forma de uma sutil e inocente bruma,
para então materializar-me, deliciosamente nua,
sobre teu corpo inconsciente e dormente.
Podes acordar, debater , tentar gritar,
Mas, advirto que será em vão,
Ninguém te ouvirá, nada te poupará
Da minha fúria ardente e paixão.
Com meus dentes e unhas, tuas roupas rasgarei
E sobre ti cavalgarei, em selvagem êxtase,
Meus lábios pálidos e frios colando-se aos teus,
Sorvendo o néctar do teu calor,
Tuas mãos, resignadas em não poder lutar,
Meus seios acariciam, levadas pelo prazer
Que invade o teu ser.
As minhas unhas cravando-se em tuas costas,
Deixando um rastro rubro de sangue,
Já não mais te importas com a dor,
Não é, meu amor?
Nada mais te importa,
Medo, pecado, inferno, punição ou dor,
apenas o prazer que te dou
Em troca de algo tão ínfimo e sem valor:
Tua alma imortal.
E para que serve ela, afinal?
Estás perdido dentro do meu corpo
De sedutora beleza que em nada lembra a angelical pureza,
Envolto em desejos e fantasias pecaminosas
Que eu realizo com toda presteza.
Teu ser pertence a mim agora,
Tua sanidade foi-se embora,
Estás preso na minha teia de lascívia,
Meu escravo e fiel servo para sempre serás
E saciar o meu desejo incontrolável tentarás.
Teu sangue, gozo e vitalidade me darás,
Assim como a tua alma, sem pestanejar.
Porém, quando não mais puderes me agradar,
De ti me vingarei, jogando fora tua casca mortal inútil e vazia,
Prendendo tua alma impura a grilhões de infinda tortura,
Pois destinado estás a sofrer por toda a eternidade
Nas profundezas abissais do inferno."

(Thaís Drimel Andrade)


Cada uma de nós sabe quem é e até já se encontrou as duas: Lilith (de vermelho) ou Eva (de branco) ou então com a junção das duas... duas mulheres diferentes num mesmo corpo.
Agora escolham! Fica a letra do “Running up that hill” dos Within Temptation, para melhor se entender esta estória.


"It doesn't hurt me
Do you wanna feel how it feels?
Do you wanna know that it doesn't hurt me?
Do you wanna hear about the deal that I'm making?
It's you and me, yeah
And if I only could
Make a deal with God
And have him swap our places
Be running up that road
Be running up that hill
Be running up that building
So if I only could
Don't wanna hurt thee
But see how deep the bullet lies
Unaware I'm tearing you asunder
Oh, there is thunder in our hearts
Is there so much hate for the ones we love?
Oh tell me we both matter, don't we?
It's you and me that won't be unhappy
....

C'mon baby, c'mon darling
Let me steal this moment from you now
C'mon angel, c'mon, c'mon darling
Let's exchange the experience
...

So if I only could
Make a deal with God
And have him swap our places
Be running up that road
Be running up that hill
With no problems...


publicado por antmarte às 19:33
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3 comentários:
De Anónimo a 18 de Fevereiro de 2006 às 12:48
"As imagens do mito jamais podem ser uma representação direta do segredo total da espécie humana,mas apenas o propósito de uma atitude, o reflexo de uma posição, uma postura de vida, uma maneirade jogar o jogo. E onde as regras ou formas de tal jogo são abandonadas, a mitologia dissolve-se - e, com a mitologia, a vida."
Joseph Campbell em As Máscaras de Deus (Mitologia Primitiva)
bonecarussa
</a>
(mailto:bonecarussa@hotmail.com)


De Anónimo a 18 de Fevereiro de 2006 às 12:40
Obrigada Nuno. Força para ti também.
bonecarussabonecarussa
</a>
(mailto:bonecarussa@hotmail.com)


De Anónimo a 17 de Fevereiro de 2006 às 21:34
Adorei o post e achei a história de Lilith muito actual. Só gostava de acrescentar que a letra é da autoria da Kate Bush, também ela uma autêntica Lilith.Nuno Guronsan
(http:\\nunoguronsan.blogspot.com)
(mailto:nuno.fonseca@networkcontacto.com)


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