Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Quinta-feira, 11 de Maio de 2006
Ao sul

     

   Nas férias de há uns anos, fazendo as primeiras explorações pela biblioteca de Loures, lembro-me de ter encontrado ocasionalmente um texto, que achei bastante interessante e cuja leitura logo vos sugeri. Alguns recordar-se-ão talvez desse artigo, de um nosso amigo, sobre os “«Estrangeiros» em Portugal: a antropologia das comunidades rurais portuguesas nos anos 1960” (“Ler História” nº 44).

   Em recentes digressões bibliográficas, que uma maior disponibilidade hoje nos vai permitindo, voltei a encontrar por acaso esse nosso amigo, com um texto de que também vos quero deixar nota. Trata-se do artigo “Orlando Ribeiro, Jorge Dias e José Cutileiro: imagens do Portugal mediterrânico”, do João Leal, escrito para o nº 40 da revista “Ler História” (número especial intitulado “Terras do Sul: Etnografia e História Social”).

   O Alentejo é o horizonte e a reflexão aborda temas que julgo muito interessantes (de uma forma geral e para nós em particular), no modo encantador a que este nosso amigo já nos habituou.

   O artigo foca as diferentes abordagens disciplinares e apreciações sobre a região feitas pelos três autores estudados.

   A paixão “mediterranista” do geógrafo Orlando Ribeiro leva-o quase como que a situar no Alentejo o paraíso terrestre, num registo que João Leal designa como de tipo “pastoral”, seguindo Raymond Williams (cf. bibliografia do artigo).

   Já Jorge Dias, nos seus trabalhos fundadores da etnografia e etnologia modernas em Portugal, trabalhará temas como as alfaias e tecnologias agrícolas de todo o país, aí focando também o Alentejo. Mas julgamos saber que o seu coração estaria mais a norte, apegado às tradições comunitárias dos vales profundos do Gerês ou da longínqua raia transmontana.

   O Alentejo de José Cutileiro é um outro cenário, completamente diferente dos anteriores. Formado em antropologia social, o hoje embaixador (numa nota do outro artigo que referi em cima podem ver-se os seus argumentos para o abandono da disciplina) preocupava-se então com as relações sociais tecidas entre os indivíduos nos grupos. Confrontado com uma estratificação social profundamente injusta, com a desigual distribuição da propriedade e com a exploração da mão de obra camponesa, o autor procura reflectir as razões da perpetuação desses sistema perverso.

   Num ponto final João Leal procurará pensar as relações entre “Paisagem e identidade nacional”, na linha da sua reflexão que já conhecemos.

   Em Orlando Ribeiro o fascínio pelo Mediterrâneo traduz-se também numa atracção pelas civilizações que desde sempre o povoaram, operando-se por isso uma valorização da influência romana e árabe na formação da identidade nacional.

   No pluralismo etnogenealógico de Jorge Dias, que segue aliás o modelo geográfico do país proposto por Orlando Ribeiro, reconhece-se o contributo dos diferentes grupos que ocuparam o território na formação do carácter nacional, mas também aí se pode entrever alguma predilecção pelos povos vindos do norte ou pelos “mais remotos” lusitanos.

   A articulação que Cutileiro faz do olhar sobre o Alentejo com as questões da identidade nacional será de outra índole. Absorvido na observação da região como um microcosmos do país oprimido sob o Estado Novo, o juízo do autor não poderia ser de forma alguma benévolo, mas crítico e decepcionado, o que aliás fará adiar a publicação portuguesa da sua obra para depois da Revolução de Abril. Mesmo quando usa conceitos correntes da disciplina para caracterizar a vida social da região, é do país que fala, desse país a que nem a filiação em antepassados remotos pode redimir a identidade, perdida num triste presente.

   Bom, aqui chegados, o que pretenderia com este breve resumo era conseguir aliciar-vos para a leitura do artigo. Oxalá o consiga. Acreditem que vale a pena, pela qualidade científica do texto e pela formosura do estilo, a que o autor sempre nos habituou.

   Finalmente, porque as coincidências talvez sejam afinidades, alerto-vos para um texto que o nosso camarada e amigo Sérgio escreveu esta semana no seu Tradicionalis, de carácter diferente mas também focado nessa terra mítica que é o Alentejo. (Zé Paulo)



publicado por antmarte às 16:31
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1 comentário:
De Zé Paulo a 11 de Maio de 2006 às 16:55
Esta minha sugestão de leitura pretende ser do interesse de todos, antropólogos, marcianos e espécies afins. Não foi por isso dedicada a ninguém em particular. Mas é evidente que já tenho umas cópias do artigo especialmente guardadas para um certo Suburbano-Alentejano, cujas raízes como que o obrigam a esta leitura ...


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