Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Quinta-feira, 4 de Maio de 2006
“Ferida de vida”

Frida Kahlo, "O Círculo"

 

 “Eu sou a desintegração” – Frida Kahlo, “Diário”

 
   Há tempos alguém referiu aqui a exposição de Frida Kahlo, patente no Centro Cultural de Belém até ao próximo dia 21. Quem sabe poderia até ter surgido uma ocasião para um encontro da malta, a pretexto da visita a esta exposição. Bom, mas inércias colectivas à parte, aproveitei um destes fins-de-semana mais prolongados para ir até lá. E a sugestão que deixo é que o façam também.
   Esta é uma exposição de grande divulgação e impacte, daquelas em que se criam filas de espera para entrar. Decerto que isto acontece tanto pelo vigor intrínseco da obra, como pelo carácter mítico da biografia da pintora, que se cruzam e confundem. E é um desafio extremo o encontro com esta artista.
   Perante a dificuldade em classificar o que se observa, talvez que o termo sofrimento surja adequado à expressão do que nos é dado a olhar. É de uma profunda dor e angústia que nos fala o contexto geral do percurso artístico e biográfico de Frida Kahlo. Mas então ocorre-nos uma inevitável inquietação.
   Nestes dias em que as imagens correm velozes e quase inócuas, em que reina um certo hedonismo fácil e algumas emoções se revelam voláteis, como será suportável o confronto com esta obra, a que vemos tantos sujeitarem-se? Poderá a passagem por esta exposição ser como que “descartável”, sem efeitos para o visitante que a vê e sai a “assobiar para o lado”, ou, como pretende toda a arte, há algo aqui que nos interpela e toca o âmago da nossa sensibilidade?
   Ao deixarmos a exposição a claridade solar de Belém pode iluminar a nossa reflexão. Dor, sofrimento, tragédia e morte são marcas iniludíveis nesta artista e na sua obra. Mas talvez o seu sentido não seja o imediatamente legível. A arte sublima a vida (não no sentido psicanalítico, entenda-se), sabemo-lo bem. Enaltece-a e eleva-a para lá das suas expressões mais comuns. Para lá de tudo, talvez que seja a vida que impregna o sentido de toda a obra de Frida Kahlo. Uma luta pela vida e a sua afirmação, mesmo nos limites do que a nega. Nas palavras de Mega Ferreira, na apresentação da exposição, a biografia e a obra da pintora estariam marcadas como que por uma “ferida de vida”. E “é dessa ferida que, como de uma fonte inesgotável, jorra o mistério da vida que é a sua pintura. «Nunca pintei os meus sonhos, apenas a minha própria realidade», disse, um dia. Enganava-se, porém sem mentir: porque se tivesse pintado apenas a realidade, a sua obra não nos diria que há sonho para lá da vida, alegria para lá da dor.” (Zé Paulo)


publicado por antmarte às 16:25
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