Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Terça-feira, 9 de Agosto de 2005
É tudo mentira
Um antropólogo desloca-se a Espanha embuído do espirito Quixotiano.
Leu e ouviu coisas sobre um importante aniversário de um importante
cavaleiro que, tal como ele, perseguia um sonho armado de ideias e amores. O
antropólogo apaixonou-se por este cavaleiro de tal forma, que quis pisar
os sítios que ele tinha pisado, olhar nos olhos os seus inimigos, beber e
comer nas tabernas onde ele, o cavaleiro, havia pousado as armas numa
pequena trégua retemperadora.
Espanha fervia de Agosto como nunca e o antropólogo procurava os sítios do
Quixote com um total entusiasmo que nem sentia a desidratação que lhe
escorria pelo rosto.
Placas e placas de terras secas aproximam-no do circuito que planeara, e vai
parando em todos os locais emblemáticos do famoso cavaleiro: Puerto Lápice,
Campo de Criptana, Villanueva de los Infantes e mais por aí.
Pára e entra em cada restício do Quixote, imagina-se, revê-se, compra um
pequeno Rocinante que pendura no retrovisor do seu companheiro de viagem.
Experimenta, só por brincadeira, uma barbicha postiça igual à do seu bem
amado herói... mas só por brincadeira.
Na Venta de Puerto Lápice bebe até não sentir o chão, arma-se cavaleiro,
discute, com quem ouve, a nobreza da vida, cita, incessantemente, passagens
do romance.
Acorda com fortes dores no pescoço e na cabeça. O carro nunca foi cama.
Entra na Venta para acordar e sorri, procurando compreensão pelos excessos
da noite anterior. O pequeno homem atrás do balcão serve-lhe uma boa chavena de mau café e
pergunta-lhe: "que tal foi a noite, Quixote?"
O antropólogo envergonha-se e, procurando um tom intimista, olha o
pequeno, o homem: "e você, conhece o Quixote?"
"Isso ainda está mal! Quer mais café?"
O antropólogo recebe mais uma boa chavena de mau café "eu sei que ele já morreu, mas você
conheceu o Quixote?"
O homem pequeno debruça-se no balcão e, quase num sussurro, confidencia "O
Quixote nunca existiu. É tudo mentira". Jorge Castro


publicado por antmarte às 18:23
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1 comentário:
De Anónimo a 10 de Agosto de 2005 às 12:13
Parece que o Palma, numa primeira versão, teria escrito "com o amigo que nunca existiu". Mas afinal aparece "com o amigo que a tudo assistiu" (e se assistiu é porque esteve lá, logo, detém essa velha autoridade etnográfica de que já temos ouvido falar...). Não sei, não sei se será mesmo "tudo mentira"...
(Não seria talvez preciso agradecer, mas quero dar um especial Obrigado ao Jorge por estas fabulosas linhas. Continua a aparecer, com textos ou imagens... quem sabe umas fotografias de algures por aí, Roma ou assim... ;) ) (Zé Paulo)Zé Paulo
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(mailto:ilus@clix.pt)


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