Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Domingo, 5 de Março de 2006
9 de Março de 2006 – felizmente o fim de um ciclo
Eu acredito em datas predestinadas. Ou, faço por isso. Há datas que recordam efemérides que assinalam acontecimentos ou fenómenos importantes na História e na nossa vida pessoal. Não é dessas que pretendo falar, mas daquelas outras, que associadas a alguém, nos mobilizam nos fazem acreditar, mais uma vez, que a nossa vida pessoal e colectiva encontrará as motivações de superação do status quo em que ciclicamente nos encontramos mergulhados.

Num esforço de emulação interior, procuro nestas linhas, estar para além do politicamente correcto, e, do banal engajamento político. Ressaltará sempre, adjacente à manifestação desta vontade o velho busílis antropológico, a capacidade de em cada momento superarmos o etnocentrismo cultural e social que nos permita o “olhar” distante e isento. Contudo, tem razão Robert Rowland 1987 quando afirma que “o antropólogo não é, como uma criança, uma tabula rasa cultural”. Daí que, a “isenção” para “olhar o outro” esteja sempre condicionada pelo aparelho conceptual de que somos portadores.

Cumpre-se hoje 9 Março, o fim mandato do presidente Jorge Sampaio. Não pretendo fazer uma análise ao seu mandato, apenas constatar que ele coincide com dez anos de retrocesso de Portugal.
Sobre o ciclo que se inicia falaremos amanhã.

Dir-me-ão que o aparelho institucional português confere ao presidente da república um estatuto semi-presidencialista de reduzida margem de manobra de intervenção politica. Não estou de acordo. Ao Governo cabe governar e ao presidente não incumbe apenas o simbólico. A representação exterior, desde o discursos eloquente na nações Unidas ao rolar melancólico de uma lágrima furtiva, na visita de índole neo-colonial a Timor-leste.

Mas ainda mais simbólico, são a chefia suprema das forças armadas e a burocrática nomeação de todo e qualquer governo que resulta - não se sua iniciativa, mas, da vontade soberana dos eleitores. É muito pouco o que fez. Se apenas ao simbólico diz respeito o exercício da magistratura de um semi presidencialismo, então, definitivamente desejo para Portugal uma monarquia institucional - corta fitas -, como a Inglesa. Estão bem definidos e assumidas á partida as competências de cada Poder e, economicamente talvez seja mais rentável.

Este presidente da república parte e Portugal fica em termos absolutos - na vertente económica, cultural e social, mais pobre. Não procuro imputar-lhe toda a responsabilidade mas apenas constatar a realidade. Durante dez anos ele esteve lá. Não sei se o que fez, tão pouco o que poderia ter feito, mas, um exemplo entre outros, a justiça nunca esteve tão mal. O caso do envelope 9 do jornal 24 horas e todo o processo com a procuradoria da republica, é o epilogo, da banalização e do descrédito a que a Instituição Presidência da Republica caiu. É humilhante que, salvo erro, Miguel Sousa Tavares possa dizer, que teria sido suficiente passar em frente à residência oficial para correr o risco de, também qualquer cidadão adquirir o direito a uma medalha.

Sobre os sucessivos governos que empossou, limitou-se às tomadas de posse ao rigor dos formalismos constitucionais, sem um grito de revolta politica de despertar consciências de impedir que sucessivos governos fossem desgovernos. Mensagem à Nação, vetos e toda a panóplia de poderes de intervenção que possui, aos usos e costumes nada disse. Apesar da enorme legitimidade que lhe adveio do voto popular e a visibilidade que possui pelo lugar que ocupou teve medo de rupturas, deixou que os acontecimentos gerissem os próprios factos políticos.

Foi bonito, bom falante, legalista, consensual na podridão o que, permitiu sempre elevados índices de popularidade. Mas, todavia regredimos dez anos. Como diz hoje José Manuel Fernandes no público “qualquer leitura que seja feita sobre a sua passagem por Belém à luz do país que encontrou e do país que deixou arrisca-se a ser sombria, mesmo que injusta”. Mas ele estava lá e, apenas ocupou espaço. Foi pena. Merecíamos mais. JF

Amanhã o 10 de Março de 2006


publicado por antmarte às 18:37
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6 comentários:
De Anónimo a 8 de Março de 2006 às 22:22
Eu devo ser qualquer coisa desse grupo dos perigosos vermelhos. Não me merece muitos, ou melhor, nenhum comentário. Apenas a cada vez mais profunda certeza da desilusão que por aqui se vai abater nos próximos anos.Jose Raposo
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(mailto:jose_raposo@netcabo.pt)


De Anónimo a 7 de Março de 2006 às 19:46
Assumo-me já como perigoso esquerdalho. Aliás, e aqui apenas o Zé Paulo me conhece e só ele poderá confirmar, sou mesmo um perigoso e potencial terrorista de esquerda, como diria o Ribeiro e Castro. E não, Jorge Ferraz, ninguém diria que és de direita ao ler tudo aquilo que escreves...

Viva a social democracia! Abaixo a esquerda folclórica!Nuno Guronsan
(http://www.nunoguronsan.blogspot.com)
(mailto:nuno.fonseca@networkcontacto.com)


De Anónimo a 6 de Março de 2006 às 20:36
Vamos lá a ver se nos entendemos pica-pau, e, em passant o Zé Paulo Nunca falei em esquerda e direita nem falo. Sou social-democrata e, sei o que isso é e, o que dela esperar. Esquerda em Portugal faz parte do folclore que por ai animam massa ululantes. Dizer-se de esquerda, andar com cravos na lapela, ou falar com tiques longânimes em Zeca Afonso não determina para os ditos a pretensão de superioridade cultural, social ou politica. Ninguém (penso eu) reconhece aos utilizadores de tais tiques a maior elevação ou reconhecimento superior, apenas a ostentação de um folclórico aberração.
É tão-somente um elitismo que ostentam todos aqueles que ao longo dos anos se posicionam nas franjas do poder e são sorvedouros do erário públicos. Mal por mal prefiro as tias de cascais que, com o mesmo elitismo, ostentam em corpos silicones uns trapitos com etiquetas Augustus ou quejandos e, é suficiente para o seu imaginário flutuar. Meu caro pica-pau, esquerda ou direita é manjedoura para a qual não contribuo, e, permita-me a chacota, aos tais esquerdistas prefiro como sempre, apelidar de perigosos esquerdalhos.
Mas queira o pica-pau ou não, com o mandato de Jorge Sampaio Portugal regrediu. Não fiz nem farei a análise exaustiva aos seus mandatos. Dei apenas e como exemplo uma aérea, a da justiça para justificar da desbunda que por ai e instalou. Podem alguns esquerdalhos querer adoçar a pílula, e, haverá muitos, mas no início da democracia éramos os últimos da Europa a 15 como hoje na comunidade a 25 continuamos orgulhosamente em ultimo. E se reparar no meu escrito, a minha critica não está apenas no desempenho de Jorge Sampaio mas implicitamente em todos os governos que por ai andaram nestes últimos 10 anos. Sobre o que quero deste novo presidente, meu caro terá de esperar pela próxima crónica, mas por certo, acredite, terá desempenho superior. E, mesmo que por aquela cabeça possa passar a alteração da constituição (será sempre o povo a decidir) espero, que primeiro seja referendado o regime republicano. Nada garante, antes o contrário é demonstrado pelo exemplo europeu, a monarquia não é menos competente, nobre e democrática como regime político. E, noblesse oblige, menos conflituante e perdulária. JF
Jorge Ferraz
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(mailto:jferraz@iol.pt)


De Anónimo a 6 de Março de 2006 às 17:43
Eu não acredito em datas e, muito menos, em homens predestinados, sejam eles de esquerda ou de direita. A República não tem dono. Ser republicano, laico e socialista é o que é, e, por isso, não votei em quem o afirmando o não respeitou.
Quanto ao “politicamente correcto”, como pretenso denominador comum da esquerda, de todas esquerdas, O JF tem apenas meia razão que, como se sabe, é a pior das mentiras. Não tenho por certo saber hoje o que significa ser de esquerda ou de direita. Tenho para mim até que este conceito perdeu hoje grande parte da sua validade prática de distinção ideológica. Mas, se o JF achar que não, então que o explique.
Todas as estruturas partidárias existentes em Portugal estão contaminadas por apóstolos de causas nobres e lúcidas que mais não visam do que a apropriação do poder como um fim em si mesmo.
Já não há pachorra. E a que sobra ao JF ainda não lhe deu para perceber que a malta está quase toda borrifando para o politicamente correcto.
Quanto ao dez anos de presidência do senhor Dr. Jorge Sampaio, também não concordei com algumas coisas que ele fez ou deixou de fazer. O que eu sei, é que isso, não alterou coisíssima nenhuma.
Se quiserem outra coisa que se altere a constituição. O próximo PR sabe bem disso. O JF é que parece ainda não ter interiorizado que o senhor professor já não é o seu presidente, mas o de todos nós, mesmo dos que, como eu, não votou nele. Assim sendo, por aí, a coisa nem aquece nem arrefenta.
Picapau Amarelo
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(mailto:carrilho@ci.uc.pt)


De Anónimo a 6 de Março de 2006 às 13:16
"Palavras injustas e tendenciosas, falsamente disfarçadas de "tranparentes". Terei todo o gosto neste debate franco e aberto e garanto total isenção politico-partidária. Casa a caso vamos debater estes 10 de retrocesso. jfJorge Ferraz
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(mailto:jferraz@iol.pt)


De Anónimo a 6 de Março de 2006 às 09:34
Assim mo permita o tempo e terei que fazer aqui uma leitura alternativa dos mandatos de Jorge Sampaio na presidência da república. Já tinha pensado escrever qualquer coisa, mas hesitava em trazer para aqui mais essa discussão. Perante as palavras do nosso Delegado querido, não é a habitual brincadeira que me leva a querer contrariá-lo, mas um profundo repúdio pelas palavras injustas e tendenciosas, falsamente disfarçadas de "tranparentes". E, desculpa-me mas já conheces a minha posição, considero essas tuas palavras reveladoras de uma idolatria e de um providencialismo face ao fututro presidente, que julgo pouco saudáveis para a nossa democracia. havemos de falar em tudo isto... Zé Paulo
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(mailto:ilus@clix.pt)


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