Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Quinta-feira, 9 de Março de 2006
Um outro balanço ou o meu obrigado
Jorge Sampaio, P.R. 1996-2006

Recusando um realismo simplista, a pintora não pretende em todo o caso escapar a algum convencionalismo, à posse formal de chefe de Estado, a um certo cerimonial. E talvez que nesse comedimento do gesto artístico seja também captada uma faceta do retratado.
Jorge Sampaio, o político, o cidadão, o homem, não pretendeu, no exercício dos cargos públicos para que foi eleito, arrogar-se a qualquer estatuto “sobre-humano”, adoptar uma conduta paternalista, providencialista, superior. Em tempos de artificiais bonecos de cera encenados, que de Boliqueime a Londres, passando também por S. Bento, derramam a sua arrogância de “special one’s”, esta atitude de Sampaio foi por si só uma grande lição de cidadania. Custar-lhe-á porventura o epíteto de “apagado”, esse “baixo perfil” por que optou, mas a recusa em ser uma figura “excelsa” é fundamental ao aprofundamento da nossa democracia, ainda por vezes tão apegada a pais e padrinhos. Ficará talvez como o primeiro presidente do pós-25 de Abril a quem não se associa um grande facto histórico (“pai” da democracia, ou do 25 de Novembro, disto, ou daquilo...), mas o seu empenho cívico constante e persistente, ao longo de toda uma vida, dispensam bem os rótulos lustrosos. Um presidente “normal”? É também esse decerto um seu contributo para o amadurecimento político do nosso país.
Depois, dos seus actos e omissões, erros e acertos, muito se disse e dirá. Eu apenas digo que...
Não é culpado por nenhum dos males dos últimos dez anos, porque fez o que a um presidente cabe fazer. Apelou, alertou, exigiu e decidiu nas alturas em que lhe competia. Usou bem dos poderes atribuídos, foi prudente mas não “apagado”, e argumentar que é preciso mudar os poderes presidenciais é procurar desencobrir novos Sebastiões...
Não foi parcial quando quis nomear novo governo PS em 2001 nem errou quando nomeou Santana Lopes. Em ambas as ocasiões pretendeu honrar o parlamento, instituição fundamental da democracia, que não tem sido devidamente considerada.
Dissolveu a Assembleia em 2004 por pura opção política sua, legitimamente, e os posteriores resultados eleitorais mostraram estar em plena sintonia com o povo.
Ao senhor que serviu cafés nos Açores e agora janta em restaurantes caros em Bruxelas pressionou-o sobre o envio de militares para o Iraque. Mais uma vez interveio, mais uma vez em sintonia com o sentimento popular.
Na questão de Timor foi a nossa voz, não numa qualquer atitude neo-colonialista, mas na assunção dos mais basilares princípios dos direitos humanos e da política internacional, em que o nosso povo se revê e se torna grande, apesar de pequeno.
Emocionou-se e comoveu-se em excesso? Nunca soou a artificialismo, mas à genuinidade de um homem bom. Autêntico.
Por tudo isto a república deve estar grata a Jorge Sampaio. Está viva, bem servida e dignificada. Por tudo isto nós lhe estamos gratos.
Por fim, porque não sou “isento” ou “imparcial”, mas “comprometido” e convicto, apenas uma referência mais. Jorge Sampaio é talvez o último “representante” de uma esquerda em que me revejo e admiro. Porque há esquerda e direita, ainda, e porque há esquerdas. A esquerda por ele “representada” não tem complexos de orfandade relativamente ao marxismo ortodoxo, porque nunca se reviu nele e combateu-o. Não alinha no esquerdismo populista, porque é responsável e democrática. Mas não se enleia também nas proclamadas terceiras vias, se é que estas ainda são esquerda e não neo-liberalismos disfarçados. Mas então, haverá ainda essa tal esquerda de Sampaio? (uma esquerda que talvez naturalmente se integrasse no PS, mas com a qual o partido tem sempre convivido mal) Pela sua conduta política e pela atitude cívica, Jorge Sampaio deixa o exemplo de que essa esquerda existe, de que esse caminho é ainda possível. E por isso também agradeço ao político, ao cidadão e ao homem. (Zé Paulo)


publicado por antmarte às 09:32
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5 comentários:
De Anónimo a 10 de Março de 2006 às 22:41
Isto está ficar perigoso! Cheira-me à emergência de uma santa aliança do PP contra mim. (P de picapau e P de Paulo) mas, não esperem pela demora. Voltarei com todo o esplendor. Por ora estou apenas preocupado espiritualmente. Será que o Barcelona no ninho da águia sofrerá do Glorioso dois ou três golos? jfjferraz
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(mailto:jferraz@iol.pt)


De Anónimo a 10 de Março de 2006 às 10:13
Da cidade do conhecimento (segundo julgo saber) só poderia vir um comentário deste "calibre". Obrigado por ele, pelas frequentes visitas e pelas "bicadas" no nosso querido Delegado, que bem as precisa de vez em quando (sempre...). Quanto à sugestão da dimensão essencialmente estética dos posicionamentos, registo-a e acho interessante, mas não deve iludir que em termos políticos também ainda há (e haverá, na minha humilde opinião) diferenças que fundamentam as diferentes tomadas de posição. Obrigado e um abraço!Zé Paulo
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(mailto:ilus@clix.pt)


De Anónimo a 9 de Março de 2006 às 21:16
Embora me situe nessa área, acho que não tenho que recorrer a quaisquer posicionamentos de esquerda, mesmo que democrática, não alinhada, etc., etc., para exprimir uma opinião globalmente positiva dos dez anos de presidência de Jorge Sampaio. Não sei sequer qual o sentido que se possa atribuir à chamada “terceira via” teorizada por Anthony Giddens e, eventualmente, seguida por Tony Blair. Ao contrário, sei de muito boa gente que hoje contesta ou reivindica um “neoliberalismo” cujos contornos são tão ou mais difusos no que de operatório comportam para uma análise serena das questões económicas, sociais e políticas que afligem o nosso tempo. Ainda hoje, na “Quadratura do Círculo”, ouvi José Pacheco Pereira pronunciar-se sobre a mais que boa, excelente, presidência de Jorge Sampaio, perante as contigências que sucederam durante o seu mandato. Que foram muitas e difíceis, disse ele. Assim sendo, tenho para mim que, no limite, o elemento diferenciador de muitas das posições que hoje se defendem são fundamentalmente estéticas. Sejam o que forem, ao menos que sejam inteligentes e informadas.Picapau Amarelo
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(mailto:carrilho@ci.uc.pt)


De Anónimo a 9 de Março de 2006 às 11:25
Nada contra o teu texto. É um outro "olhar" para o qual não preciso de sais de fruto para compreender e aceitar. Contudo, não retiro uma virgula ao meu texto. Por esta razão comezinha.
Sou cidadão de Portugal, tambem fui um dos oficiais que fez o 25 de Abril e, quero um pais com dignidade, em toda a amplitude da palavra, onde goste de viver. Não tenho a pretensão de deixar um país melhor para os meus filhos (não os tenho) quero um pais melhor para mim. E meu caro Zé, tenho o direito de ser exigente. Até pago impostos. Mas que eu esperava mais de Sampaio lá isso esperava. E talvez ele tivesse a obrigação de ter dado muito mais. jfjferraz
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(mailto:jferraz@iol.pt)


De Anónimo a 9 de Março de 2006 às 09:53
Tal como prometido atrás, aqui fica um meu balanço aos dez anos de Sampaio na presidência. Entendi trazer mais esta conversa para aqui apenas por pensar que era preciso um balanço alternativo ao que já fez o Ferraz. Fica ao vosso juízo avaliar o que digo, mas já sabem que as minhas palavras não são "isentas" nem "neutras"...Zé Paulo
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(mailto:ilus@clix.pt)


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