Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2005
Das coisas que se vão lendo
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Há livros que pensamos ter mesmo de ler, mas que as armadilhas do tempo e das circunstâncias vão mantendo afastados. Quando vamos finalmente ao seu encontro, para os estudar, ou fazer deles apenas uma leitura descomprometida, podemos talvez experimentar um sentimento sublime, deixarmo-nos encantar, como na peregrinação que algum dia temos de fazer aos lugares neles narrados.
Mas para vos falar do livro que andei a ler nos últimos tempos, deixo-vos estas palavras, decerto mais autorizadas:
“Mas o viajante traz uma ideia fixa: ir a Rio de Onor. Não é que da visita espere mundos e maravilhas, afinal Rio de Onor não passa duma pequena aldeia, não constam por lá sinais de godos ou de mouros, porém quando um homem mexe em livros colam-se-lhe à memória nomes, factos, impressões, e tudo isto se vai elaborando e complicando até chegar, é este o caso, às idealidades do mito. O viajante não veio fazer trabalho de etnólogo ou de sociólogo, dele ninguém esperará supremas descobertas, nem sequer outras menores: tem apenas o legítimo e humaníssimo desejo de ver o que outras pessoas viram, de assentar os pés onde outros pés deixaram marcas. Rio de Onor é para o viajante como um lugar de peregrinação: de lá trouxe alguém um livro que, sendo obra de ciência, é das mais comovedoras coisas que em Portugal se escreveram. É essa terra que o viajante quer ver com os seus próprios olhos. Nada mais.” – José Saramago, “Viagem a Portugal” (Zé Paulo)


publicado por antmarte às 12:06
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1 comentário:
De Anónimo a 21 de Dezembro de 2005 às 12:17
Aos visitantes forasteiros, talvez não "altamente especializados" na área (ao contrário de nós...), refere-se que a obra aludida é "Rio de Onor, Comunitarsimo Agro-pastoril", de Jorge Dias (1953). A alusão de Saramago é vaga, não o indica claramente, mas por uma questão de datas de edição supõe-se não poder referir-se ao outro clássico da antropologia sobre Rio de Onor, do Professor Pais de Brito (coisinha que também teremos de "atacar" um dia...)Zé Paulo
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