Ponto de encontro da turma da noite de antropologia, do ISCTE, 2001-2005
Domingo, 12 de Fevereiro de 2006
Cidadania
Se considerarmos que a temética da educação cidadã é um dos mais significativos e importantes contributos deixados pelo movimento da Escola Nova, no ínicio do século passado, somos capazes de calcular a dimensão desta tarefa de fixar um sentido, para o que se pluralizou ao longo dos tempos, pleno de controvérsia e de debate. Didadania é um desses termos, a par de outros como por exemplo , autonomia, cuja utilização é, na verdade, a expressão de formas muito distintas, eventualmente concorrenciais, de análise e orientação da acção educativa. Vale a pena, por isso, antes de mais, tentar clarificar o conceito e a sua aplicabilidade social e educacional.

A escola pública ssumiu, ao longo da história, como missão especifica, formar cidadãos, seres sociais que no futuro pudessem exercer direitos e responsabilidades cívicas, políticas e sociais: trabalhar, votar , ser eleito, dar a sua opinião, enfim um extenso número de acções. Assim, a escola foi pensada, instituida e administrada secularmente não como um espaço de cidadania presente, mas como um dispositivo de formação para uma cidadania futura. essa situação já interrogava alguns intelectuais como é o exemplo de António Sérgio no principio do século XX: se não se pode aprender a tocar piano sem carregar nas teclas, como é que se pode aprender a ser cidadão sem praticar a cidadania? Não pode, definitivamente. Desta maneira, para Sérgio(1984), a escola só poderia realizar adequadamente a sua "revolução", de abertura à razão, de progresso social e fraternidade, se ela própria fosse um espaço de exercicio de direitos de cidadania, ou seja, um local de livre expressão de pensamento e de decisão dos alunos, colectivamente organizada, sobre todas as vertentes e aspectos da vida escolar.

Actualmente, a cidadania da escola tem vinso À luz pelo efeito de dois factores com origens distintas.

O primeiro, o facto do "declinio do programa institucional", para utilizar uma expressão do sociologo francês François Dubet(2001), a escola é um dos mais eleoquentes testemunhos, sendo a educação para a cidadania convocada, neste âmbito e frequentemente, como processo pedagógico de aquisição de comportamentos ajustáveis. Por outras palavras, a escola não pode cumprir a missão histórica que a caracterizou no passado.

A escola alargou-se, tornou-se mais complexa e é chamada a coordenar e dirigir projectos de vida caracterizados pela diferença, códigos culturais distintos, normas de procedimento agarradas a valores variados, estilos e formas de conhecimento radicados em diferentes epistemologias.
Assim, a educação para a cidadania, pese embora venha a surgir na prática como uma nova forma de disciplina, constrói o seu sentido na concertação de direitos, ou seja na incorporação de cidadanias periféricas e na promoção de uma pedagogia sustentada em principios de interculturalidade activa.

O segundo factor, a emergencia de uma nova concepção social de infancia, a partir da consagração dos direitos da criança em 1989, que apresenta as crianças como cidadãos e sujeitos de direitos. As crianças foram sempre simbolicamente administradas pelo lado do "ainda não poderem": votar, não ser eleitos, não casar, não trabalhar, ...etc. A concepção que subjaz os direitos da criança, propõe uma uma infancia competente, com direitos e participativa, considerando embora, certas variáveis dntro do subgrupo etário.

A cidadania, nesse sentido, significa a plena assunção das crianças não só como destinatarios e receptores passivos, não apenas como consumidores e benficiários da acção pedagógica, mas já como sujeitos activos participativos e co-responsáveis pelo processo de educação.

A educação para a cidadania, transforma-se desta menira em educação na cidadania.

No entanto, a primeira condição é que haja cidade, o espaço público de convivencia de homens e mulheres, pequenos e grandes, com direitos e deveres iguais.

A escola nunca poderá ser a ilha de uma cidadania ausente do espaço que a envolve. é por isso que ela apenas se configurará como centro de educação para/na cidadania se for capaz de se tornar um"elo da politica social"(Sarmento 2000), mais ainda, se estender a sua missão civica no (seu) interior de um "espaço publico educativo" (Nóvoa 2005), que a acolhe, que a contamina, mas que também nela interfere e por ela é constituido.

Finalmente, neste tempo em que os significados se entrechocam e no momento em que uma força neoconservadora clama o "regresso" da escola à dominação, À CULTURA ÚNICA, convém talvez apontar entre esta barafunda conceptual, que a escola só será verdadeiramente um lugar de cidadania, se ele própria for uma cidade , onde se comunicam saberes e valores, numa relação espiralada de vasos comunicantes.

A cidade educativa de cidadãos únicos e particulares mas totais:
"Crianças são as letras antigas com que se escreve a única palavra insuportavelmente viva" (Herberto Hélder)
bonecarussa


publicado por antmarte às 11:58
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10 comentários:
De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2006 às 23:18
E dura..........Pois muito bem e para que conste em acta, se ainda tiver para aí uma folhinha azul de papel selado e uns selitos fiscais,tanto melhor, aproveite e gaste-os, a única coisa que nos separa, a única coisa que se 'intro'mete entre nós, a única coisa que nunca fui capaz de suportar em si, já para não referir que também não frequentamos a mesma pastelaria JF(K), pois nunca, tá a ver, nunca o vi na Versailles, a única coisa que nos afasta, não é nem mais nem menos que o seu pénis.
A minha vida sexual, desde que nos conhecemos(salvo seja), que sempre foi muito boa. A minha ideia de namoro, não digo. bonecarussa
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(mailto:bonecarussa@hotmail.com)


De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2006 às 18:16
Obrigado pela deferência do amazing post. A proposito, neste dia dos namorados já arranjaste namorada? Apesar de não estar na tua onda és livre de escolher aquela que te alimenta os sonhos. JF(K)Jorge Ferraz
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(mailto:jferraz@iol.pt)


De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2006 às 00:51
Atrás de uma árvore pode estar um lobisomem. LOL. Falta de fashion sim senhor. Volto agora a repetir senhor que a minha única ânsia, em relação a si JF(K)'lindo não? eu sabia que ia gostar, que Maçada', é a hora em que qual gazela farejando o ar como se fora pela primeira vez, abrirei este blog e darei de "focinho", com o seu Amazing post sobre as "gajas que queriam casar......". Mais, nicks carissimo há alguns por aqui. Agora, mesmo sem ser "your fair lady" sou uma marciana de toda a confiança, that for sure. Finalmente, a única coisa que procuro para mim(quais complacencia) é que tenhas bons sonhos, LOL.
bonecarussa
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(mailto:bonecarussa@hotmail.com)


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 23:19
Sonhar contigo! mamuchka, ou Matrioshka (bonecarussa)!!!!!!


Como é estimulante desafiar o(a) anonimato, o fulcro dos meus idílicos e hedónicos sonhos.!?!?

O(a) desconhecido(a) que me conhece, - o Zé foi tão parco na divulgação de password’s para acesso aos antropologosdemarte -, que prefere a penumbra, qual Matrioshka (bonecarussa) que se oculta camada sob camada nas catacumbas de ossuários

Não descerei camada sob camada à procura da miragem a quem injuriei, persuadido que era “my fair lady” «que falta de fashion», afinal um imerecido elogio. Aparece Matrioshka (bonecarussa), deixa as semelhanças com o Rattus norvegicus dos bueiros da nossa cidade. Ou será que quiçá pela ânsia de visibilidade, procuras primeiro, para ti, arrimo e complacência para um casamento inter pares dentro do género que não ousas assumir. Ou talvez um sindroma de falta de lhaneza de quem procura uma cidadania perdida.

Ou revoir Matrioshka.

JF(K) gostei desta homonímia.
Jorge Ferraz
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(mailto:jferraz@iol.pt)


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 17:06
Nem pensar isto não é iniciar nenhum debate, mas reconheço que é legitimo ao JF(K) apontar o dedo à minha afirmação "no entanto a primeira condição é que haja cidade", o que deveria ter escrito seria: "Contudo a condição primeira (necessária ainda que não suficiente) para a cidadania é que haja cidade". Touché, tenho dito. bonecarussabonecarussa
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(mailto:bonecarussa@hotmail.com)


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 16:50
LOL, é tão engraçado você, passa a noite a sonhar comigo e depois não me conhece. Gaffe????? "my fair lady"??????? Que falta de fashion, LOL. É mesmo engraçado você. A única coisa que me dá ânsias em si é a promessa, que já não pode estar longe, do pseudo post, sobre as gajas que queriam casar...bonecarussa
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(mailto:bonecarussa@hotmail.com)


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 13:18
Ops!! mas que gaffe. Afinal a bonecarussa é mesmo "my fair lady". Volta sempre. jfJorge Ferraz
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(mailto:jferraz@iol.pt)


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 11:41
Bom dia, e muito obrigada.
Minha cara, Jorge Ferraz, minha cara.
Voltarei prá discussão concerteza, assim que as circunstancias mo permitirem, agora só passei por aqui tal como costumo fazer às vezes.bonecarussa
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(mailto:bonecarussa@yahoo.com)


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 09:54
Mas quem foi mesmo que escreveu esta tempestuosa enxurrada de ideias, carregada com uma trovoada de luminosos relâmpagos?! Que refrescante dilúvio tivémos aqui pela nossa órbita, em tempos de tão árida seca por esse mundo fora...Zé Paulo
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(mailto:ilus@clix.pt)


De Anónimo a 12 de Fevereiro de 2006 às 19:24
Cidadania ou os direitos dos cidadãos. Como esta palavra esteve tão em voga na última campanha eleitoral na palavra do poeta Manuel Alegre. Cada Cidadão membro de uma comunidade democrática tem e goza efectivamente de direitos e deveres mas, como cumprir e fazer cumprir esses direitos e deveres? Como se adquire a Cidadania? Como posso e devo enquanto cidadão cumprir os meus deveres e exigir os meus direitos?
Onde termina se é que alguma vez devesse ter começado o “direito” da criança em atirar papeis para o chão? Onde termina e começa em cada criança o “dever” de estudar e respeitar as instituições de ensino? O que é uma instituição de ensino? O que é a escola publica? A escola, o estado, os professores, os pais as autarquias, os museus? Todos juntos, nós a sociedade?
Como evitar a exclusão quando a “instituição” não funciona? Permitir o “direito” à “revolta” agora em não atirar os papéis ao chão mas em destruir o caixote do lixo? Como se deve manifestar o direito à indignação (outra vez as palavras de um ex-candidato presidencial)
O nosso momento cultural e civilizacional que se desenvolve à velocidade do tecnológico, que ultrapassa as vontades da instituição “sociedade” que, como um todo, devia assumir a educação e a formação como um desígnio permanente e ao longo de toda a vida, terá essas capacidades para criar e educar permanentemente? Como? Cidadania palavra mágica. Como é possível faze-la funcionar por todos. E as palavras: disciplina, responsabilidade e autoridade entram no léxico da educação para a cidadania, neste mundo gerido pela globalização, seja isto o que quer que seja? Como dotar de competências e fomentar comportamentos. Mas “a primeira condição é que haja cidade” Como?
Meu caro “A escola alargou-se, tornou-se mais complexa e é chamada a coordenar e dirigir projectos de vida caracterizados pela diferença, códigos culturais distintos, normas de procedimento agarradas a valores variados, estilos e formas de conhecimento radicados em diferentes epistemologias. Assim, a educação para a cidadania, pese embora venha a surgir na prática como uma nova forma de disciplina, constrói o seu sentido na concertação de direitos, ou seja na incorporação de cidadanias periféricas e na promoção de uma pedagogia sustentada em princípios de interculturalidade activa”.Como?
Meu caro volte, vamos debater este assusto. JF
Jorge Ferraz
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(mailto:jferraz@iol.pt)


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